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Arquivo de: Setembro 2006

24.09.06

Setembro, flores e neve (1ª parte)

                                                       Marlem Oraide Cardoso

      Pela janela do hospital, onde me tratava de uma forte pneumonia, contemplava os flocos de neve cairem aos borbotões, cobrindo de branco o concreto acinzentado de um prédio ainda inacabado. Este espetáculo de impar beleza, não tão comum em setembro, no Sul do Brasil, transformou-se num cenário de onde dei um salto para o momento existencial em que me encontrava. Tornei presente a pergunta que uma amiga havia me feito no dia anterior em relação ao que eu iria repensar na minha vida.   Surpreendi-me com a espontaneidade com que lhe disse: - Nada.
     Reportei-me para um outro setembro, em que quando ainda jovem, também me surpreendi comigo mesma, quando, ao manifestar o desejo de que o tempo passasse depressa para me aposentar e poder fazer coisas de que gostava, emergiu em meus pensamentos o questionamento: então, tu não gostas do que fazes? Naquele momento meus olhos escuros se esbugalharam de perplexidade. Era difícil acreditar que ainda não tinha percebido de que gostava do que fazia e de que não precisaria me aposentar para sentir-me bem.
      Naquele dia também contemplara pela janela, não a neve, mas um pessegueiro, que há poucos dias parecia sem vida, todo em flor. Metaforicamente pensei que um novo florir poderia se dar em minha vida.
(continua)

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  • Postado em 20:31:44

Setembro, flores e neve (continuação)

Desde então, indagações mil se imbricaram num processo complexo de transformação interior. Cada reflexão desencadeada indicava a ponta de um fio que se emaranhava com outros tantos numa grande trama. Andando por caminhos que se entrelaçam, aos poucos vou percebendo que a lógica do dever vai dando lugar a do direito, o perfeccionismo à espontaneidade, a criticidade à criatividade, a rigidez à flexibilidade, a passividade ao dinamismo, as certezas às probabilidades, o medo de desapontar ao desejo de satisfazer-me.
Aos poucos fui reconstruindo, de maneira existencial, com ajuda de profissionais competentes, o conceito de liberdade. Fui me dando conta que a vida não é regida por um determinismo mecanicista. Sempre tive a meu alcance uma variedade de possibilidades de escolha e, a partir delas, vou delineando a existência e definindo onde concentrar minhas energias, claro que sempre delimitada por questões circunstanciais que dizem respeito ao tempo e ao espaço do qual sou parte.
A complexidade inerente aos processos de transformação do ser humano tornou-se evidente a cada instante e de maneira mais contundente em momentos existências mais significativos.
Hoje, entre a lembrança do pessegueiro em flor e da neve em flocos, vislumbro a aposentadoria e acolho-a com serenidade, pois não lancei sobre ela a responsabilidade de viver prazerosamente.
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Pessegueiro em flor

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