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Marlem Oraide Cardoso
Pela janela do hospital, onde me tratava de uma forte pneumonia, contemplava os flocos de neve cairem aos borbotões, cobrindo de branco o concreto acinzentado de um prédio ainda inacabado. Este espetáculo de impar beleza, não tão comum em setembro, no Sul do Brasil, transformou-se num cenário de onde dei um salto para o momento existencial em que me encontrava. Tornei presente a pergunta que uma amiga havia me feito no dia anterior em relação ao que eu iria repensar na minha vida. Surpreendi-me com a espontaneidade com que lhe disse: - Nada.
Reportei-me para um outro setembro, em que quando ainda jovem, também me surpreendi comigo mesma, quando, ao manifestar o desejo de que o tempo passasse depressa para me aposentar e poder fazer coisas de que gostava, emergiu em meus pensamentos o questionamento: então, tu não gostas do que fazes? Naquele momento meus olhos escuros se esbugalharam de perplexidade. Era difícil acreditar que ainda não tinha percebido de que gostava do que fazia e de que não precisaria me aposentar para sentir-me bem.
Naquele dia também contemplara pela janela, não a neve, mas um pessegueiro, que há poucos dias parecia sem vida, todo em flor. Metaforicamente pensei que um novo florir poderia se dar em minha vida.
(continua)