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Marlem Oraide Cardoso (04/12/06)
Há tempo desmanchei uma blusa de crochê. Não foi uma tarefa fácil, pois era um dos últimos trabalhos feito por minha mãe. O seu modelo foi sendo construído por nós duas à medida que estava sendo tecida. De quando em vez, o olhar atento de meu pai sobre o trabalho levava-me solicitar-lhe uma opinião, ao que ele respondia, com muita vivacidade, que não sabia se iria ficar bonita, mas que tinha certeza que ninguém teria igual.
A blusa não só ficou original como, sobretudo bonita. Usei-a uma ou duas vezes. Engordei e ela não me serviu mais.
Enquanto desfazia cada fiada de ponto, a lembrança do tempo em que elas foram tão carinhosamente tecidas marcou presença e eu estive nela mergulhada por inteiro. Foi um momento litúrgico, de comunhão, de celebração da vida... Revivi o entrelaçar das emoções dos enfrentamentos, das tensões, dos conflitos, das alegrias e das realizações, que se davam no cotidiano do relacionamento familiar.
Num momento, o fio que até então deslizara suavemente por entre meus dedos, resistiu ao meu impulso. Olhei-o atentamente e deparei-me com um nó que o prendia fortemente. Não era um nó qualquer. Era um nó cego e por mais que tentasse não consegui desfazê-lo. Então, quase que instantaneamente, enredada no emaranhado das lembranças, reavivei a crença que o viver humano acontece no domínio das relações interpessoais. Foi nele, com ele e a partir dele que estruturei formas de convivência, que aprendi a nem sempre manifestar as minhas emoções, que signifiquei e resignifiquei idéias e que elegi valores norteadores do meu ser e do meu fazer.
Hoje, em qualquer problematização que venha fazer em relação aos meus sentires, saberes ou fazeres, necessariamente debruço-me sobre a malha tecida as longo da minha existência. Nela facilmente pontualizo, não só os saberes e os poderes, dos meus familiares - sujeitos que os produziram - como, sobretudo as suas singularidades e semelhanças, com nuances peculiares aos lugares e aos tempos em que foram se corporificando.
Ainda hoje, quando contemplo os três novelos que foram tomando forma e tamanho na medida em que fui desmanchando o crochê, percebo que, os fios que deles se desprendem, embora separados conforme a sua coloração - azul celeste, verde musgo e rosa-antigo - estão, no meu imaginário, atados um ao outro por um nó cego.