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Arquivo de: Fevereiro 2007

13.02.07

O desejo

                                                               Marlem Oraide Cardoso

       Desde criança Seu Chico percorria, dia a dia, as ruelas do vilarejo que o vira nascer. A cadência desacelerada de seu cantarolar, nos últimos tempos, vinha denunciando que alguma coisa o afligia. Seu inseparável companheiro de jornada estava mostrando sinais de cansaço. Para que agilizasse o passo, o amo, embora penalizado, batia-lhe no lombo. No entanto, inconformado com o que vinha fazendo, buscava uma alternativa para livrar o cavalo Tordilho das chicotadas. Depois de muito pensar, encontrou uma saída que, na sua ingenuidade, pareceu-lhe brilhante. Prendeu uma espiga de milho numa vara e amarrou-a no varão da carroça de maneira que a espiga ficasse sempre à frente do animal. Desejando saborear o alimento, Tordilho passou a andar mais depressa e sem parar.

 

        Enquanto reescrevia esta fábula descortinaram-se diante de mim diferentes cenários, onde eu, individualmente ou na coletividade, fui protagonista de muitos andares em busca de objetos de desejo. Sempre me senti atraída a participar de ações em proveito da construção de uma sociedade mais humana, mais feliz. Toda vez que me acenavam para esta possibilidade, sem pestanejar, punha-me a andar, andar, andar...         (continua)

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  • Postado em 23:15:02

O desejo

                         (continuação)

Envolvia-me de tal jeito que nem me dava conta que, muitas vezes, tal qual a espiga de milho, a proposta constituía-se num artifício arquitetado com objetivos nem tão plausíveis e que o objeto de desejo estava diante de mim inatingível, intocável.

Esperanças malogradas, sonhos desfeitos, prazeres frustrados, marcos de uma caminhada de amadurecimento, de fortalecimento, de revitalização.

Gradativamente fui processando aprendizagens significativas e, então, fui percebendo que o que me mobilizava não eram os objetos que me eram apresentados, mas, sim a grande força energética, revitalizante que me gesta e é por mim gestada: o desejo. Ele, o desejo, eclode dentro de mim, como força mobilizadora da transformação e da construção de uma nova subjetividade.

Hoje, dou-me o direito de, tanto quanto possível, imaginar, criar, ou eleger os projetos com os quais vou me envolver. Seleciono, nem sempre os mais ousados, mas sim os que me parecem serem mais éticos e, ao fazê-lo, percebo-me distanciando-me, cada vez mais, do Tordilho.

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