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Marlem Oraide Cardoso
Desde criança Seu Chico percorria, dia a dia, as ruelas do vilarejo que o vira nascer. A cadência desacelerada de seu cantarolar, nos últimos tempos, vinha denunciando que alguma coisa o afligia. Seu inseparável companheiro de jornada estava mostrando sinais de cansaço. Para que agilizasse o passo, o amo, embora penalizado, batia-lhe no lombo. No entanto, inconformado com o que vinha fazendo, buscava uma alternativa para livrar o cavalo Tordilho das chicotadas. Depois de muito pensar, encontrou uma saída que, na sua ingenuidade, pareceu-lhe brilhante. Prendeu uma espiga de milho numa vara e amarrou-a no varão da carroça de maneira que a espiga ficasse sempre à frente do animal. Desejando saborear o alimento, Tordilho passou a andar mais depressa e sem parar.
Enquanto reescrevia esta fábula descortinaram-se diante de mim diferentes cenários, onde eu, individualmente ou na coletividade, fui protagonista de muitos andares em busca de objetos de desejo. Sempre me senti atraída a participar de ações em proveito da construção de uma sociedade mais humana, mais feliz. Toda vez que me acenavam para esta possibilidade, sem pestanejar, punha-me a andar, andar, andar... (continua)
(continuação)
Envolvia-me de tal jeito que nem me dava conta que, muitas vezes, tal qual a espiga de milho, a proposta constituía-se num artifício arquitetado com objetivos nem tão plausíveis e que o objeto de desejo estava diante de mim inatingível, intocável.
Esperanças malogradas, sonhos desfeitos, prazeres frustrados, marcos de uma caminhada de amadurecimento, de fortalecimento, de revitalização.
Gradativamente fui processando aprendizagens significativas e, então, fui percebendo que o que me mobilizava não eram os objetos que me eram apresentados, mas, sim a grande força energética, revitalizante que me gesta e é por mim gestada: o desejo. Ele, o desejo, eclode dentro de mim, como força mobilizadora da transformação e da construção de uma nova subjetividade.
Hoje, dou-me o direito de, tanto quanto possível, imaginar, criar, ou eleger os projetos com os quais vou me envolver. Seleciono, nem sempre os mais ousados, mas sim os que me parecem serem mais éticos e, ao fazê-lo, percebo-me distanciando-me, cada vez mais, do Tordilho.
Marlem Oraide Cardoso (04/12/06)
Há tempo desmanchei uma blusa de crochê. Não foi uma tarefa fácil, pois era um dos últimos trabalhos feito por minha mãe. O seu modelo foi sendo construído por nós duas à medida que estava sendo tecida. De quando em vez, o olhar atento de meu pai sobre o trabalho levava-me solicitar-lhe uma opinião, ao que ele respondia, com muita vivacidade, que não sabia se iria ficar bonita, mas que tinha certeza que ninguém teria igual.
A blusa não só ficou original como, sobretudo bonita. Usei-a uma ou duas vezes. Engordei e ela não me serviu mais.
Enquanto desfazia cada fiada de ponto, a lembrança do tempo em que elas foram tão carinhosamente tecidas marcou presença e eu estive nela mergulhada por inteiro. Foi um momento litúrgico, de comunhão, de celebração da vida... Revivi o entrelaçar das emoções dos enfrentamentos, das tensões, dos conflitos, das alegrias e das realizações, que se davam no cotidiano do relacionamento familiar.
Num momento, o fio que até então deslizara suavemente por entre meus dedos, resistiu ao meu impulso. Olhei-o atentamente e deparei-me com um nó que o prendia fortemente. Não era um nó qualquer. Era um nó cego e por mais que tentasse não consegui desfazê-lo. Então, quase que instantaneamente, enredada no emaranhado das lembranças, reavivei a crença que o viver humano acontece no domínio das relações interpessoais. Foi nele, com ele e a partir dele que estruturei formas de convivência, que aprendi a nem sempre manifestar as minhas emoções, que signifiquei e resignifiquei idéias e que elegi valores norteadores do meu ser e do meu fazer.
Hoje, em qualquer problematização que venha fazer em relação aos meus sentires, saberes ou fazeres, necessariamente debruço-me sobre a malha tecida as longo da minha existência. Nela facilmente pontualizo, não só os saberes e os poderes, dos meus familiares - sujeitos que os produziram - como, sobretudo as suas singularidades e semelhanças, com nuances peculiares aos lugares e aos tempos em que foram se corporificando.
Ainda hoje, quando contemplo os três novelos que foram tomando forma e tamanho na medida em que fui desmanchando o crochê, percebo que, os fios que deles se desprendem, embora separados conforme a sua coloração - azul celeste, verde musgo e rosa-antigo - estão, no meu imaginário, atados um ao outro por um nó cego.
Marlem Oraide Cardoso (17/11/06)
O vento norte lá fora fazia sua ronda como de costume naquela época do ano. O seu sibilar cadenciado provocava em mim certa inquietude.
Uma pausa e um recomeçar...
Uma nova pausa, desta vez, um pouco mais prolongada. No entanto, eu ainda não havia concluído meu pensamento em relação à possibilidade de que o vento iria silenciar que ali estava ele, mais impetuoso do que antes, rugindo enfurecido.
Afastei um pouco a cortina que bailava de um lado para o outro, impulsionada pelo sopro feraz que penetrava por uma fresta da vidraça e, por entre os galhos da caneleira, contemplei o céu. As trevas faziam ai, morada. Então, a angústia e a ansiedade em mim habitaram e meus olhos arregalados falaram do meu medo.
De repente uma forte rajada de vento arremessou pelos ares uma folha de zinco, que no seu percurso, ao passar diante da janela, encobriu um pequeno filamento que bordava o grande manto celeste. Um instante suficientemente longo para que eu me dessa conta de que o filamento prateado, contornado de um azul rosáceo, que até então, parecia-me um simples detalhe inserido naquele cenário, era o contraponto do caos que ali se instalava.
A claridade que dele emergia esmaecia-se por entre as nuvens densas e opacas que, sacudidas de seu torpor, movimentavam-se rapidamente. Pareciam estar com pressa de desfazer-se da aparente inércia que lhes assolava. Lá no horizonte distante fagulhas elétricas se alternavam, algumas vezes, seguidas de um prolongado estrondo que, ecoando na imensidão, pareciam anunciar o aguaceiro que não demorou lançar-se aos borbotões sobre a terra seca e sedenta.
Retornei à leitura do jornal que estava fazendo antes do temporal. Avidamente meus olhos percorreram aquelas páginas em busca de, pelo menos, um filamento que, nas intempéries da vida ali retratadas, figurasse como contraponto.
O mal-estar em mim se instalou.
Certamente vivemos um momento caótico. Os indivíduos e os grupos movimentam-se em direções e velocidades completamente diferentes das até hoje por eles experimentadas. Diante da inviabilidade de prever o que vai acontecer reafirmo minha crença que vale a pena fazer a diferença. Então, tal qual o filamento de luz perdido no céu cinzento, aos poucos, assumo as cores dos contextos dos quais sou parte, e neles, com eles e a partir deles busco criativamente novas alternativas de transformação.