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Marlem Oraide Cardoso
Num entardecer, uma de minhas irmãs mais velhas convidou-me para acompanhá-la até o quarto. Antes de fechar a porta, olhou para todos os lados para se certificar de que não tínhamos sido vistas pela caçula da casa, dois anos mais moça do que eu. Nossa mãe já estava ali, sentada, nos aguardando.
Por causa do ar misterioso compartilhado pelas duas, fiquei ansiosa. Tanquilizei-me, no entanto, quando minha irmã, puxando a mala que estava debaixo da cama, disse que iria mostrar o que ela havia comprado para a caçula. Com cuidado tirou de dentro de uma caixa de papelão Andinha, uma boneca que andava. Bastava apoiar seus pés no chão e impulsioná-la levemente para um e para outro lado que ela se deslocava. A cada passo, movimentava levemente a cabeça e as pálpebras abriam e fechavam. Suas feições eram delicadas, sua pele rosácea e seus cabelos, loiro-acobreados, seus olhos, castanho-esverdeados. Eu ainda não havia visto tão linda, por isso custei acreditar que não era uma miragem.
Enquanto guardava a boneca, minha irmã disse que havia ficado tentada para comprar uma máquina de costura bem pequeninha para eu costurar.
Fiquei muito ansiosa e, às escondidas, na expectativa de que minha irmã não tivesse resistido à tentação, fui bisbilhotar n amala.
Na manhã de Natal quando abri o pacote com um corte de tecido tafetá azul-marinho dei-me conta que oficialmente minha família não mais me considerava criança.
Diante desta constatação, também às escondidas, comecei a fazer minhas primeiras costuras na máquina da mãe. No dia em que fui descoberta, depois de uma grande reprimenda, recebi permissão de costurar sob sua supervisão. Passei, então, a confeccionar para Andinha os modelos de vestido que havia criado, enquanto não tinha certeza de qual seria meu presente.
Há poucos dias, no último Natal, percebi que a ansiedade, decorrente da expectativa em relação ao atendimento ou não do pedido do Papai Noel, marcava presença entre os sobrinhos netos pequenos. Os pré-adolescentes tinahm uma outra postura. Quando um deles, com 12 anos, ao procurar algo na bolsa de viagem da sua mãe, deparou-se com uma camiseta do Grêmio, com brilho nos olhos, disse-me que certamente era o presente dele. Reportei-me àquele Natal de 1950 e quase sem perceber, no meu íntimo, balbuciei:
- Meu Deus! Como o tempo passa! Ele não mais é criança!